Sexta-feira, Dezembro 4

Nichos/ 15 de um novembro em minúsculo










‘Finding is the first Act
The second, loss,
Third, Expedition for
The “Golden Fleece”

Fourth, no Discovery —
Fifth, no Crew —
Finally, no Golden Fleece —
Jason — sham — too.’ Emily Dickinson



Não nos perdoe, menino.
Leva na tua mãozinha fechava a desculpa que nunca se fez. Não se faz.
Vá dormindo. Dorme,
que para lavar teu choro único
escondi no teu imenso pequenino peito
as nuvens que nunca foram...
Mas não nos perdoe.
Dorme, que numa manhã como aquela, no lugar de uma criança,
Vai nascer uma flor de terríveis espinhos.
E eu vou.
Vou te encontrar, vou te segurar e te acordar dizendo;
Jamais nos perdoe, meu filho.
Especialmente eu; Teu agourento nicho coagulado em culpa.

Sexta-feira, Junho 5

Nichos/ Niniréquiemm



POR QUE FICAR SEM VOCÊ?
POR PERGUNTAR. PORQUE.

Nichos/ Niniréquiem



MEU REFLEXO NA FACA ME CEGOU.

Nichos/ A-me



Construa o meu nicho sob a janela do teu quarto.
Limpa-me o vidro e o alabastro.
Conta-me como vão seus dias, ajeite o seu cabelo.
Lembra-me do cheiro da pele e do cheiro e do cheiro e do cheiro.
Enfeita-me com cartas, bilhetinhos e vaga-lumes. Não use flores.
Honra-me com teus soluços, repita-os no mármore;
EU ESTOU AQUI
EU ESTOU AQUI
EU ESTOU AQUI;
E sim, durma-me no teu sangue, sonha-me no teu leite:
Eu estou aí.

Sexta-feira, Abril 17

Nichos/ Concretizar


























Sentou-se a beira do nicho e era só lembranças.
Lembrou-se de quando se conheceram, na feira.
(As mãos, acidentalmente, se trombaram entre acelgas e acelgas.)
Lembrou-se da tarde em que noivaram, na feira.
(O solitário escondido numa couve-flor.)
E tinha ainda o dia em que brigaram (única vez), pois
precisavam decidir qual era o pé de rúcula mais folhoso.
Enfim, suspirou e um antigo desabafo lhe veio a garganta
(como alfafa mal digerida) e aflorou boca afora;
– Quiabos, César! Enfim, agora EU, carrego as minhas
próprias compras! A-MÉM-NHÊ! –
Plantou a alcachofra de concreto aos pés daquele nicho e voltou a feira, rindo e rindo.
Era uma cavala vingada.

Nichos/ NCIS





No fundo, no fundo, nada mais contava.
O intocável horizonte, o mar, sereias, iodo, nós.
Aportar, umidificar nossa eternidade.
Nada conta. Nada ancora.
O que restava, o que resta, vejam:
mal sabemos em qual tempo nadar.
Saber? Resta-nos sorver.
Sorver o fundo.
Aprofundar de tão morrer.
E, talvez, remar.
Remar até evaporar,
E orar. Orar até chover.

(não fossem os nós, não fossemos nós.)

Nichos/ O Jardim Rigoroso





A mim prendem-se heras e formigas.
Me distraio com elas e o tempo venta, irriga ...
Tentar desmentir os rigores do tempo é negar-se.
Como se o nicho, feito para elogiar a morte, também morresse
e fosse além de se exibir num outro nicho de uma morte desse ou de como o que.
Nesse meu
Empoleiram-se
Um pássaro aqui
E outro
E um outro mais.
(Esse último imita a minha vaidade.)

Quieto, passarinho!
O coveiro esta dormindo!

Nichos/ Bête Noire




Adormeço.
Ouço as minhas e as tuas pálpebras;
Torturam-se.
Sinto o frio da mudez e a leveza das feridas.
O tempo e o cimento, meu bem.
E uma sugestão: toma-me,
ao menos no além.

Nichos/ Para Sempre, Sitiada.




Sentia tanto estar enterrada aos pés de um nicho
que, de repente, o vento a liquidou.
Subitamente caiu ao céu e do céu.
Viu uma bacia, o finalzinho de uma cama úmida,
Um homem pardo, um pato e uma galinha, apavorados, ao lado de uma mulher parruda e valente.
Piscou aos mucos e berros e, ah! , só uma lembrança;
O bafo de socorro numa encruzilhada janelinha de duas caras e, ah! , só uma certeza;
Em qualquer rocinha, Zé, a vida é morna e cortam-lhe a cordinha.

Segunda-feira, Abril 6

Nichos/ Whispers



Uma noite, de frente pro nicho de um amigo,
estávamos a conversar e ele me disse:
– Sabe, esse negócio de não estar mais entre os vivos é bem irritante. Uma loucura mesmo.Nunca mais consegui esmagar uma barata e detesto ter um esôfago translúcido. Os santos não acham graça nas piadas. A graça deles é outra. Ha!
Mas o pior de tudo foi perder as habilidades de lamber o meu próprio cotovelo e a de tocar a ponta do meu nariz com a língua!
Cadê o tal ectoplasma?
– É. Cadê?
– Fuh.
– U ó.
– U ó mesmo.

Nichos/ The Other Another Town



“…In another town
My fingers so cold
In another town
My soul feels so old
In another town
I've sold all my gold
In another town
(…)
In another town
The light fills my room
In another town
They're painting my moon
In another town
I won't see it soon
In another town
But I know I know I know
I love you....”
Regina Spektor/ANOTHER TOWN

A vida no nicho não é fácil. Mesmo que o nicho seja a janela da alma de uma carne que não.
E no cemitério, somos todos vizinhos numa boa vizinhança.
É lindo de se ver (Mesmo que as flores sejam plásticas). Especialmente no natal. Imaginem por que. Mesmo que seja impossível prender luzes ou musicas no nicho. O que se pode ter é o som das nuvens, admiradas, freando e o dos passarinhos, admirados, gritando um grito bem fininho. E mesmo que a memória viva entrevada, mesmo que a fumaça nos retenha, mesmo que qualquer gesto passe correndo e nos atravesse, rezemos, vizinhos. Rezemos de olhos perpetuamente abertos, pois é lindo de se ver. Mesmo que lá fora chova canivetes.

Nichos/ Lápide Fonada





VIVI BEM.
ADQUIRIDA DOENÇA, MORRI COMO PUDE.
BOSTA.
SAUDADE CHULETA.
ABRAÇO ZÉFA.

Nichos/ Let’s Get Lost ou Fort Huachuka ou Cara De Pedra




Este nicho, ladies and gentleman,
é o Senhor meu carrasco, a Senhorita minha calçada, The Club Of (only) Mine.
Aqui descansei o rosto, os outros dentes, uns sopros, um pássaro.
Aqui atolei um estilo, improvisei a cor e uma única guerra;
Onde eu perdi a sombra, o tempo. O tal fôlego.
O que esperavam de uma boca cheia de terra?

Amsterdã,1988, Sr.!
(todo nicho é uma janela, Sr.!
... Procedente de uma calçada, Sr.!
... De uma fama ... De uma alçada ...) Sr.

Sábado, Março 14

Nichos/ Yuppie




Abriu o nicho a procura de.
Nem sabia o que procurava.
Com o peito estufado buscou, buscou, mas só viu uma árvore tão magra...
Como magros haviam sido seus triunfos.
Errou. Mas também amou.
Amou a vida, a Av. Paulista – Meu reduto, meu pódio, minha mulher! –, a umas pequenas glórias e, oh! Como amou as gravatas!
Uma imensidão de gravatas.
Vermelhas, listadas, xadrezes, em estampas orientais, gravatas e gravatas e gravatas.
Fitou as mãos vazias.
O pelado colarinho. Viu os botões da camisa!
Meu Deus! Os nunca vistos botões!
E sorriu.
No ritmo em que as lagrimas lhe escapavam,
Voltou ao nicho como quem volta a uma masmorra.
E sorriu!
Havia sido velado e enterrado vestindo uma linda gravata italiana.
Mas no nicho, em bronze, no porta-retrato, a foto do homem não tinha gravata.
– Malditos! – orou.

Nichos/ A Santa Quebrada



NUM POTE DE FELICIDADE,
PROMETERAM-ME UMA LOIRA ETERNIDADE.
VOU,
MAS LEVO AS MINHAS PERNAS.

Norma Jeane Mortensen
Saudades dos queridos canalhas
Califórnia, 1962.

Nichos/ Missal



Nicho cravado na tua palma.
O vidro voltado para a tua cara.
Uma única flor: minha ilusão.
Viu aquela procissão?
Sentiu cócegas?
Eram minhas lembranças
Cortejando meu finado orgulho
Amortalhado na tua mão.

Quinta-feira, Fevereiro 26

Nichos/ Represa Represa Represa














UM SIM QUE NÃO MOLHA

(ÁGUAS POR SERPENTINAS GELADAS
SEM SAIR DO NICHO DE FOGO
NOS CANOS DO MEU EDIFICADA QUE NADA
NUM PROJETO DE IRRIGAÇÃO PRÉ-FOGO
COMO COM AS MÃOS DE SAL TENTAR SEGURAR UM PUNHADO
DESSAS TUAS ÁGUAS
UM ROTEIRO DO NADA UM PEDAÇO DO QUE NÃO UMA FENDA NO MEU VÃO)

UM NÃO QUE ME ENCHARCA
(guardando pedras para quando canoa no teu lago)

Nichos/ Represa Represa




























UMA REPRESA QUE NADA
E NADA
E NADA EU FICO PENSANDO ASSIM:
VOCÊ
UMA PAREDE
A MANCHA
É CLARO QUE ERA A BATALHA NAVAL
É TANTA ÁGUA QUE EU
ESTÁTUA DE SAL.
(TE ODEIO.
DESDE O NOSSO NICHO.
DESDE O MEU CONTORNO.
DESDE O TEU RETORNO. VOLTA.
(E NÃO ESQUEÇA A TESOURA, AMOR
QUE EU SEMPRE VOU LEVAR UM CACHO DA TUA DOR))

Nichos/ Represa






























Me dê uma mão.
Agora outra. E agora sopre.
Meu nicho está nu. Trêmulo como tremula minha voz.
– Vem? –
Venha a mim o teu nome até o osso. Creio.
Sequer uma luva veste o meu anseio
Descalço do espaço
Embebido em pura sede. (É isso!)
– Oh, líquido amor,
Molha a minha vista, encharca essa minha carne tão tua. –

Nichos/ Amor











É FÁCIL INVENTAR UM NICHO.
FAÇO ISSO TODAS AS NOITES
AO DORMIR E PENSAR A TUA BOCA.
A SANTA ORVALHADA TEMPERATURA.
A PERPETUA VONTADE DE TI.
CRAVEJADA NO MARFIM DOS DENTES.
ROSA MORDIDA.
CRUZ SALIVADA.
UMA LAMBIDA, UM DOTE,
UM SEXO, UM FLANCO.
LENTO.
E UMA ORAÇÃO:
POR QUE TE FIZ SANTO?

Nichos/ Urso



















Uma cara lentíssima.
Peso de asa dura.
Cor de brasa atrás do vidro.
O nicho do meu senhor é um eu-te-quero letárgico
Atolado à minha pressa.
Binário.
Bípede.
Não entendo.
Apenas somo aos meus invernos.

Segunda-feira, Fevereiro 16

Nichos/ Dilúvio

















Vem do teu nicho a voz especialista em construir barquinhos, ondas e pequenos sóis.
Tudo certo.
Tudo dentro.
Tudo certo.
A tua falta vive ardendo a me flutuar ar, ar e ar:
Eu vou cicatrizar.

Nichos/ O que não é















Me seguro nesse Nicho.
Cantando, dançando,
Me penduro sobre as tuas costelas,
Seus ossos velhos de mim.
Contente, grito a tua presença preciosa.
E vou sumindo,
Na medida em que te guardo, vou desaparecendo.
Vê?
O meu fim é você.
Por trancar em mim o que não é meu,
Todo o meu fim é você.

Nota:
AUMENTAR A SEGURANÇA!

Nichos/ Nicho Do Saco




Palavras escapadas!
Argumentos fraquíssimos!
Gestos impensados!
Beijos acaçapados, sacos e sacos de melancolia!
Venham e tragam a bacia!

Nichos/ Careless Whisper




















Quem vê aquele nicho
Olha um Santo que diz assim a quem o vê:
– Eu acredito no que você vê e por isso
Eu vejo o que você crê e crer na importância do que eu digo
É aquilo de quando você me vê. –
E ele guarda sob as vestes uma faca, algodão e brumas.
Mas só para quem não souber viver e morrer (que é um outro jeito de viver sem morrer).

Nichos/ Guardado




















Para o rabo do fim que foi,
Para um empoeirado Boi.
O nicho de ontem, mas ainda assim, inteiro.
Onde existir é estrangeiro.

GUARDAR, ESQUECER, suprir para voltar a GUARDAR.
para te esquecer e suprir a guardar-TE.
Em MIM.
COMO NÓS.
((Preciso, mesmo!, parar de comer, meu Deus.))

Nichos/ O doido do nicho





















– Era uma vez uma gentarada. E vendo Tantão toda aquela gentarada, foi ter com seus irmãos a fim de comunicar o ocorrido. E os irmãos de Tantão, Tatercio e Tófocles, tendo ouvido Tantão, também se puseram a caminho de ver a gentarada. E em chegando lá, Tantão, Tatercio e Tófocles, vendo a gentarada, disseram assim; Estamos presos! Estamos todos presos em mim, O Doido do Nicho! Aliás, conheces a todos esses de mim, Senhor Meu Deus? –